quarta-feira, 15 de abril de 2015

Nikita -Há tempos
Gabryel 06:42 0 comentários

Nikita – Há tempos

Há tempos que nikita pensava na morte, um assunto tão escondido das conversas prosaicas entre pessoas comuns e algo que na verdade, não é um ótimo tópico para discussões de fim de tarde ou duma manhã ensolarada, mas para nikita isso pouco importava, era o que ela tinha na cabeça e não queria parar de pensar nesse momento de nossas vidas onde se põe um ponto final, igual nos textos que escrevemos para os professores em escolas e faculdades, a cada parágrafo um ponto final para dar fôlego ao conteúdo que virá a seguir, e depois o ponto final absoluto, terminando assim um ciclo, uma cadeia de informações que se interrompe naquele breve ponto, minúsculo, mas muito importante.
Era como em nossas vidas pensara nikita, algo tão efêmero, tão curto, tão rápido que mesmo sendo assim, assustador lhe causava um frenesi inexplicável, desconcertante, aterrorizador, empolgante e até excitante, já que na duvida do momento onde esse ponto final iria ceifar sua redação da seara, nikita permitia se vivenciar os prazeres da carne sem medos e controles sobre o corpo que lhe fora emprestado para viver essa personagem nessa curta temporada, e é claro, ela não deixava por menos, entre suores e beijos molhados arrancava de cada minuto de seu tempo aqui, nesse globo fétido e cansado, o que não poderá depois de partir dessa pra uma talvez, se formos bem otimistas, melhor, senão, deixemos para a imaginação dessa moça nada santa o seu destino, tão nebuloso como as manhãs e dias londrinos, dos quais nikita era apaixonada, já que lembravam ainda mais a morte. Era a combinação perfeita para ela: seu cigarro, uma manhã londrina e a morte em sua cabeça. Vivia em função de procura-la em cada esquina, em cada beco que fosse, nas teclas de sua máquina de escrever, na fumaça daquele cigarro que fumava todos os dias, na espuma do leite, no brilho dos olhos em um amante apaixonado, no cheiro de fumaça dos carros, da vontade de dormir mais um pouco sempre que acordava às seis da manhã e ia tomar rumo do trabalho.
Então, ela decidiu se que a vida era muito, mas muito curta para não pensar em morrer, e que cada dia de vida era um de morte, já tinha morrido 26 anos, bem vividos, e era essa meta que queria alcançar, mais anos de vida e morte, aliás ela nem sabia ao certo o que queria, somente que iria viver muito, sem se preocupar com os outros, que sempre questionavam-na pelo hábito terrível e mortífero de fumar, por suas noites em claro escrevendo, seus livros desalinhados no chão de seu quarto enquanto a estante estava vazia e cheia de pó. Ela gostava que seus livros tivessem a liberdade de estarem separados cada um, sem aquela pressão de ficarem reunidos r espremidos um ao lado do outro num pedaço de madeira sem vida, somente como se fossem parte da parede, uma decoração inútil à mente, nada além de pó.
Subitamente nikita engravitou de si mesma e foi gestando cada dia uma nova nikita que se renascia a cada nova ideia ou movimento mental que fazia, e não eram poucos.
Por que ter medo de sentir quem é? Pois cada um de nós é pressionado a ser quem não queria? E ter de enfrentar o seu real ser é amedrontador? Talvez fosse por isso que milhares de pessoas andavam de cabeça pra baixo, vestidas em panos cinza e gravatas pretas sempre a ir a algum lugar e não chegando a lugar algum, batendo pontos e cumprindo horários, mentindo para não magoar, bebendo para acalmar a fera que quer escapar de dentro do peito, fumando para sufocar esse ser estranho à sociedade que quer sempre a liberdade, tal liberdade que é ceifada violentamente por quem mais interessaria a soltura imediata desse tal meliante sem culpa do delito que se quer cometeu.

Era o fim, chega, nikita tomou dois comprimidos de alguma coisa bem forte e capotou em seu sofá-cama com a butuca do cigarro entre os dedos e seus sapatos calçados manchando de areia e terra o tecido claro do sofá-cama, era mesmo o fim, tinha de ser, pelo menos até ela acordar.
Categoria:
Sobre o autor Aqui você adiciona uma descrição do autor da pastagem. Para Trocar a foto do postador do blog procure o link da foto no HTML e adicione uma sua ok. Facebook ou Twitter

0 comentários

Postar um comentário