Nikita – Há tempos
Há tempos que nikita pensava na morte, um assunto tão
escondido das conversas prosaicas entre pessoas comuns e algo que na verdade,
não é um ótimo tópico para discussões de fim de tarde ou duma manhã ensolarada,
mas para nikita isso pouco importava, era o que ela tinha na cabeça e não
queria parar de pensar nesse momento de nossas vidas onde se põe um ponto
final, igual nos textos que escrevemos para os professores em escolas e
faculdades, a cada parágrafo um ponto final para dar fôlego ao conteúdo que
virá a seguir, e depois o ponto final absoluto, terminando assim um ciclo, uma
cadeia de informações que se interrompe naquele breve ponto, minúsculo, mas
muito importante.
Era como em nossas vidas pensara nikita, algo tão efêmero,
tão curto, tão rápido que mesmo sendo assim, assustador lhe causava um frenesi inexplicável,
desconcertante, aterrorizador, empolgante e até excitante, já que na duvida do
momento onde esse ponto final iria ceifar sua redação da seara, nikita permitia
se vivenciar os prazeres da carne sem medos e controles sobre o corpo que lhe
fora emprestado para viver essa personagem nessa curta temporada, e é claro,
ela não deixava por menos, entre suores e beijos molhados arrancava de cada minuto
de seu tempo aqui, nesse globo fétido e cansado, o que não poderá depois de
partir dessa pra uma talvez, se formos bem otimistas, melhor, senão, deixemos
para a imaginação dessa moça nada santa o seu destino, tão nebuloso como as
manhãs e dias londrinos, dos quais nikita era apaixonada, já que lembravam
ainda mais a morte. Era a combinação perfeita para ela: seu cigarro, uma manhã
londrina e a morte em sua cabeça. Vivia em função de procura-la em cada
esquina, em cada beco que fosse, nas teclas de sua máquina de escrever, na
fumaça daquele cigarro que fumava todos os dias, na espuma do leite, no brilho
dos olhos em um amante apaixonado, no cheiro de fumaça dos carros, da vontade
de dormir mais um pouco sempre que acordava às seis da manhã e ia tomar rumo do
trabalho.
Então, ela decidiu se que a vida era muito, mas muito curta
para não pensar em morrer, e que cada dia de vida era um de morte, já tinha
morrido 26 anos, bem vividos, e era essa meta que queria alcançar, mais anos de
vida e morte, aliás ela nem sabia ao certo o que queria, somente que iria viver
muito, sem se preocupar com os outros, que sempre questionavam-na pelo hábito
terrível e mortífero de fumar, por suas noites em claro escrevendo, seus livros
desalinhados no chão de seu quarto enquanto a estante estava vazia e cheia de
pó. Ela gostava que seus livros tivessem a liberdade de estarem separados cada
um, sem aquela pressão de ficarem reunidos r espremidos um ao lado do outro num
pedaço de madeira sem vida, somente como se fossem parte da parede, uma
decoração inútil à mente, nada além de pó.
Subitamente nikita engravitou de si mesma e foi gestando
cada dia uma nova nikita que se renascia a cada nova ideia ou movimento mental
que fazia, e não eram poucos.
Por que ter medo de sentir quem é? Pois cada um de nós é
pressionado a ser quem não queria? E ter de enfrentar o seu real ser é
amedrontador? Talvez fosse por isso que milhares de pessoas andavam de cabeça
pra baixo, vestidas em panos cinza e gravatas pretas sempre a ir a algum lugar
e não chegando a lugar algum, batendo pontos e cumprindo horários, mentindo
para não magoar, bebendo para acalmar a fera que quer escapar de dentro do
peito, fumando para sufocar esse ser estranho à sociedade que quer sempre a
liberdade, tal liberdade que é ceifada violentamente por quem mais interessaria
a soltura imediata desse tal meliante sem culpa do delito que se quer cometeu.
Era o fim, chega, nikita tomou dois comprimidos de alguma
coisa bem forte e capotou em seu sofá-cama com a butuca do cigarro entre os
dedos e seus sapatos calçados manchando de areia e terra o tecido claro do
sofá-cama, era mesmo o fim, tinha de ser, pelo menos até ela acordar.
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